Na Volvo, meta é carro sem vítima fatal

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Muita gente que adora dirigir se pergunta como vai ser a vida dentro de um carro autônomo no futuro. Na Volvo Cars, empresa conhecida por produzir alguns dos carros mais seguros do mundo, a maior motivação para desenvolver automóveis que dispensarão o motorista não é oferecer a vantagem de ler um livro ou trabalhar ao invés de dirigir. A direção autônoma transformou-se numa ferramenta da montadora sueca para atingir metas ousadas como chegar a 2020 sem nenhum caso de morte ou ferimento sério em acidentes com veículos da marca.

Na Volvo, meta é carro sem vítima fatal
Na Volvo, meta é carro sem vítima fatal

“Para nós, na direção autônoma, a questão da segurança se sobrepõe à conveniência”, disse ao Valor Lex Kerssemakers, responsável pelas operações da marca sueca nas Américas, que esta semana passou dois dias no Brasil. O executivo é enfático nesse ponto e lembra que entre 80% e 90% dos acidentes com automóveis no mundo são provocados por falha humana. Segundo ele, a indústria não conseguirá melhorar a segurança dos carros só com equipamentos usados hoje, como os freios ABS ou airbags.

Kerssemakers considera “um disparate” ouvir gente dizer que carros autônomos não são para quem tem paixão por dirigir. “Não se trata de gostar ou não. Quando levei uma hora e meia para vir do aeroporto esta manhã, em São Paulo, ninguém pode dizer que dá prazer ficar sentado à frente de um volante seguindo o carro à frente no trânsito”, diz.

Para Kerssemakers, os primeiros autônomos não chegarão antes de 2020. Mas só escala e consequente redução de custos permitirão a produção em massa. “Nessa fase de desenvolvimento, só o custo do equipamento que permite a direção autônoma será de no mínimo US$ 10 mil por carro”, destaca.

Volvo: segurança é um legado

A marca da segurança é um legado da origem sueca que se propagou depois de a empresa mudar de donos duas vezes. Criada em 1927, a divisão de automóveis inicialmente pertencia ao grupo Volvo, que continua produzindo caminhões, ônibus e equipamentos. Em 1999, passou para as mãos da Ford. Em 2010, a empresa foi vendida à Geely, uma das maiores montadoras da China. Sob comando chinês, a marca de carros de luxo foi revitalizada e aumentou vendas, receita e rentabilidade.

A Volvo Cars é pequena diante das gigantes do setor. No ano passado vendeu 534 mil unidades em todo o mundo e planeja chegar a 800 mil em 2020. Os maiores grupos somam vendas anuais de mais de 10 milhões de unidades. Mas a marca sueca dedicada ao segmento premium tem chamado a atenção dos analistas. Em 2016, seu faturamento global somou US$ 21 bilhões, um aumento de 11% em relação ao ano anterior. O lucro líquido cresceu 66%, com US$ 870,9 milhões em 2016.

Mudanças ao longo dos anos

O holandês Kerssemakers trabalha na empresa há mais de 30 anos e, portanto, acompanhou a troca de donos. As coisas mudaram muito com os chineses, diz. “Quando fomos comprados pela Geely sabíamos que não poderíamos usar nenhum componente da Ford. Tivemos que começar a rascunhar novos projetos. Mas, assim, pudemos desenvolver a plataforma que acreditávamos que necessitávamos. Temos um dono muito paciente, com uma visão de muito longo prazo. Nos deram cinco anos para desenvolver a nova linha”, diz. O desenvolvimento de uma plataforma que permite modelos de veículos distintos permite, afirma o executivo, reduzir custos. A sede da Volvo Cars continua em Gotemburgo, na Suécia, onde também está o coração do desenvolvimento de produto.

Kerssemakers saiu da área de produto para assumir, em 15 de janeiro, a operação que abrange da América do Norte à América do Sul. Esse mercado soma para a Volvo 150 mil veículos por ano, dos quais 60% são vendidos nos Estados Unidos. Na semana passada, Kerssemakers, que mora em Nova York, esteve com o presidente Donald Trump para anunciar a construção de uma fábrica na Carolina do Sul. O executivo faz questão dizer que a decisão foi tomada há dois anos, antes, portanto, de a defesa da produção de carros no país ter se tornado bandeira eleitoral de Trump. Além da Suécia, a Volvo produz na Bélgica, China e Malásia.

Brasil

No Brasil, onde a Volvo ficou com 7,2% do segmento premium, que somou 48,3 mil veículos em 2016, não há planos de produção. “Olhamos o Brasil, um mercado muito importante, e todos os anos avaliamos a situação. Mas a demanda local por carros Volvo tem que ser alta o suficiente para justificar um investimento desses. O clima macroeconômico também tem que sustentar. No momento não faz nenhum sentido para nós investir numa fábrica no Brasil. Mas as coisas podem, mudar daqui dois ou três anos”, diz.

Antes disso, o executivo aposta na recuperação do mercado de luxo. “Acreditamos que a economia brasileira vai começar a voar em determinado momento; a questão é quando”, diz. Enquanto isso, vale tudo para atrair o cliente. Embora o lançamento no Brasil do novo XC60, utilitário esportivo médio recém apresentado na Europa, esteja marcado para o segundo semestre, a empresa fará a pré­venda do modelo a partir de amanhã. (Valor Econômico/Marli Olmos)