Remoção de Verniz em Sistemas Lubrificados

Protocolo Integrado com Resultados Comprovados em Redutor e Acionamento Hidráulico

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Revista Lubes em Foco edição 97

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Introdução

A formação de verniz em sistemas lubrificados tem se consolidado como um dos principais desafios técnicos em equipamentos industriais modernos. Redutores, sistemas hidráulicos, compressores, turbinas e outros ativos críticos operam hoje sob condições cada vez mais severas, caracterizadas por altas temperaturas, elevadas cargas específicas, baixos volumes de óleo e longos períodos de operação contínua. Esse cenário favorece a degradação química do lubrificante e a geração de subprodutos polares, que tendem a se manifestar na forma de depósitos conhecidos como verniz.
Diferentemente de contaminações sólidas convencionais, o verniz apresenta comportamento insidioso. Depósitos se formam progressivamente em superfícies internas, interferem em folgas micrométricas, comprometem válvulas proporcionais e servoválvulas e, muitas vezes, só são percebidos quando os impactos na confiabilidade e na disponibilidade do equipamento já são significativos. Nesse contexto, abordagens reativas ou genéricas mostram‑se insuficientes e, em alguns casos, tecnicamente inadequadas.
A remoção eficaz do verniz exige uma visão holística – e o trabalho que deriva desta compreensão passa pelo diagnóstico preciso, engenharia de campo estruturada, protocolos bem definidos e profissionais tecnicamente capacitados.

Diagnóstico: identificação, quantificação e prognóstico do impacto operacional

O primeiro pilar de qualquer estratégia de tratamento de verniz é o diagnóstico técnico confiável. Para isso, o papel de um centro de tecnologia estruturado é determinante, com infraestrutura laboratorial e corpo técnico capacitado para realizar ensaios específicos voltados à identificação, quantificação e interpretação do fenômeno do verniz. O estudo objeto desse artigo teve o apoio e o acompanhamento do Centro de Tecnologia da ICONIC Lubrificantes.
Entre os métodos empregados, destaca‑se a Membrane Patch Colorimetry (MPC). Esse ensaio avalia a presença de contaminantes insolúveis e subprodutos polares dissolvidos no óleo por meio da filtração da amostra em uma membrana, seguida da análise colorimétrica da mancha formada. A intensidade da coloração está associada à propensão ou à presença efetiva de verniz no sistema, sendo amplamente utilizada como ferramenta de tendência e comparação relativa entre amostras ao longo do tempo.
Além da análise isolada, os resultados laboratoriais são correlacionados com condições operacionais, histórico do equipamento e criticidade do ativo. Essa integração permite estabelecer um prognóstico do impacto do verniz na operação, como riscos à confiabilidade, perdas de eficiência e aumento da probabilidade de falhas não planejadas. Esse prognóstico é fundamental para justificar tecnicamente qualquer intervenção.

Engenharia de campo: validação física e estabelecimento da linha de base

Com o diagnóstico definido, a engenharia de campo assume papel central na validação do problema e no acompanhamento do processo. Uma das ferramentas utilizadas nessa etapa é a boroscopia, técnica de inspeção visual interna que permite avaliar componentes e superfícies internas sem a necessidade de desmontagem.

  • visualização direta de depósitos, lacas e vernizes;
  • registro de imagens para comparação entre as condições “antes” e “depois”;
  • Validação física das informações obtidas por meio das análises laboratoriais.

Essa inspeção estabelece uma linha de base visual que complementa o diagnóstico químico, reduz incertezas e aumenta a robustez do processo decisório.

Aplicação da tecnologia e protocolo de acompanhamento

Somente após o diagnóstico técnico e a validação de campo é que se avança para a etapa de remoção do verniz. A aplicação da tecnologia de remoção — como tecnologias comerciais de remoção química de verniz, a exemplo do VARTECH™ — é conduzida segundo um protocolo específico, desenvolvido pelo centro de tecnologia, considerando as características do equipamento, do lubrificante e da severidade do problema.
Esse protocolo define critérios claros de aplicação, frequência de monitoramento analítico, limites técnicos de atuação da tecnologia e indicadores de estabilização do sistema. Durante todo o processo, o comportamento da máquina é acompanhado de forma contínua, tanto do ponto de vista operacional quanto analítico, até que se atinja o limite técnico de remoção de verniz.
Uma vez atingido esse limite, procede‑se à substituição da carga de óleo, encerrando o ciclo de tratamento e estabelecendo uma nova linha de base operacional. Essa etapa marca a transição do equipamento de uma condição degradada para uma condição operacional saudável.

Estudo de caso (case de sucesso): guindaste portuário Liebherr LHM 400

A abordagem descrita foi aplicada em um caso real envolvendo um guindaste de grande porte Liebherr LHM 400, instalado em operação portuária de alta criticidade (VLI, Porto do Tubarão, Vitória‑ES).
Trata‑se de um ativo crítico para a operação portuária. A indisponibilidade compromete diretamente a movimentação de fertilizantes, grãos e outros granéis sólidos, impactando janelas de atracação, produtividade do berço e custos logísticos associados.
A tecnologia de remoção de verniz foi aplicada em dois sistemas do equipamento: Redutor de Elevação (içamento de carga) e Redutor de Fechamento (abertura/fechamento/captação). O diagnóstico laboratorial, aliado à inspeção por boroscopia, confirmou a necessidade de intervenção técnica. A aplicação seguiu o protocolo definido pelo centro de tecnologia, com acompanhamento analítico contínuo e decisão baseada em limites técnicos.
O incremento controlado de MPC entre a 1ª e a 4ª semana indica mobilização/solubilização de depósitos previamente aderidos às superfícies, efeito esperado durante a ação química (Tabela 1). A estabilização da tendência por volta da 4ª semana (ambos os sistemas convergindo para a casa de ~55) sugere que o tratamento atingiu o teto operacional de remoção para aquele ciclo no óleo de serviço. Com o teto atingido, os critérios de encerramento do ciclo foram atendidos e a troca de carga foi planejada/executada conforme protocolo, estabelecendo uma baseline operacional saudável para o equipamento.
Nota técnica: Em tratamentos de verniz, o valor absoluto de MPC pode variar entre laboratórios e métodos; o comportamento da tendência (elevação + estabilização) e a correlação com evidências de campo (boroscopia, desempenho de válvulas, estabilidade operacional) são os elementos decisórios centrais.

Aplicabilidade do protocolo em outros equipamentos críticos

Embora o estudo de caso esteja associado a um equipamento portuário, o protocolo adotado é aplicável a outros sistemas sujeitos a condições semelhantes de operação, como: compressores de grande porte; turbogeradores (setores sucroenergético e de geração de energia); sistemas hidráulicos industriais (extrusoras, injetoras, prensas e conformadoras); redutores industriais críticos; sistemas de controle hidráulico de alta precisão; turbinas a vapor e a gás; e sistemas de circulação de óleo em plantas químicas e petroquímicas. O elemento comum a todos esses ativos é a combinação de severidade operacional, sensibilidade do sistema e alto custo associado à indisponibilidade.

Considerações econômicas: uma visão simplificada do impacto da indisponibilidade

Do ponto de vista econômico, falhas associadas à formação de verniz raramente resultam em paradas de curta duração. Em ativos críticos, essas falhas tendem a ser abruptas e complexas, demandando manutenção corretiva emergencial e interrupções prolongadas da operação. Por esse motivo, a análise em base diária é mais representativa do impacto real.
Em operações portuárias, a indisponibilidade de um guindaste crítico por 24 horas pode representar perdas da ordem de centenas de milhares a milhões de reais, considerando espera de navios, perda de produtividade, reprogramação logística e efeitos em cascata sobre outros modais. De forma semelhante, em turbogeradores industriais, um dia de parada implica perda de geração elétrica, necessidade de compra de energia ou interrupção de processos produtivos integrados, frequentemente superando o custo anual de estratégias estruturadas de mitigação.
Esses exemplos ilustram que o investimento em ações de prevenção e remoção controlada de verniz, associado ao uso de lubrificantes de alta performance e a protocolos bem definidos, é uma decisão técnica e economicamente racional. Em praticamente todos os cenários, atuar de forma planejada é mais seguro e inteligente do que reagir a falhas catastróficas.

Conclusão

A remoção de verniz em sistemas lubrificados não deve ser tratada como uma ação pontual ou como a simples aplicação de uma tecnologia. Trata‑se de um processo técnico estruturado, sustentado por diagnóstico confiável, capacitação profissional, engenharia de campo e execução controlada. Essa abordagem permite atuar com segurança em ativos de alta criticidade, reduzindo riscos operacionais, aumentando a previsibilidade e protegendo a continuidade das operações. Sob a ótica da engenharia de confiabilidade, a gestão do verniz integra a estratégia de gestão de ativos, contribuindo diretamente para a redução de risco operacional e para a sustentabilidade dos processos industriais.