A recuperação em “V” do mercado brasileiro de lubrificantes em ano de pandemia

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Mercado brasileiro de lubrificantes 2020Mercado brasileiro de lubrificantes 2020

O Mercado Brasileiro de Lubrificantes mostrou uma reação impressionante no segundo semestre de 2020, com uma recuperação das perdas provocadas pela pandemia da Covid-19 que levou o fechamento dos números do ano a registrar uma redução muito pequena, em torno de 1%, comparada ao forte ano de 2019.

Foi um ano foi totalmente fora de qualquer padrão ou passível de um planejamento prévio. O mercado brasileiro de lubrificantes se comportou, nos primeiros meses da pandemia, igual a tantos outros, ou seja, igual à Economia do país e, principalmente, à produção industrial. O tombo de abril foi algo impactante, com cerca de 44% de queda nas vendas de lubrificantes, trazendo perspectivas bastante incertas e negativas pela frente. Mesmo com a melhora das vendas já aparecendo em maio e junho, mostrando o tão comentado formato de recuperação “V”, o mercado fechou o primeiro semestre do ano com uma queda de 12,6% em relação a 2019.



O segundo semestre de 2020 começou com muita força, colocando o mês de julho como recordista de vendas. A princípio se poderia imaginar que uma recuperação tão abrupta estaria englobando uma possível reposição de estoques e que logo cairia para níveis históricos. Realmente houve uma queda de vendas nos outros meses do segundo semestre, porém, com números bastante elevados, somente suplantados pelo mês de julho, com setembro e outubro em níveis muito parecidos com o do mês recorde. Dessa forma, houve uma forte compensação das perdas do primeiro semestre, atingindo o volume total de 1, 35 milhão de metros cúbicos, deixando 2020 com apenas 1% de diferença de 2019, significativamente acima dos últimos 5 anos.

O mercado de lubrificantes, como já esperado, refletiu o movimento também executado pelo PIB brasileiro e teve uma grande influência da indústria automobilística que apresentou um crescimento de mais de 41% no segundo semestre, mesmo tendo fechado o ano com queda de 4,5% em relação a 2019.

Mercado brasileiro de lubrificantesDestaques dos segmentos

Dentre os segmentos de aplicação dos lubrificantes, o destaque de crescimento ficou por conta dos óleos de pulverização agrícola, com um crescimento de 37,6% em relação a 2019, possivelmente retratando a safra recorde do ano de 2020. Os óleos industriais também apresentaram crescimento, em torno de 6,5% enquanto os automotivos sofreram quedas, com o ciclo Otto caindo 3,2% e o ciclo Diesel 2,4% em relação a 2019.

Participação de mercado

A disputa pelas primeiras posições das empresas distribuidoras no mercado brasileiro de lubrificantes continua extremamente acirrada, com a ICONIC e a BR Distribuidora disputando a primeira colocação nos décimos de pontos percentuais, e se alternando na liderança durante o decorrer do ano. No fechamento, a ICONIC ficou com 18,6% do mercado, enquanto a BR conquistou uma fatia de 18,3%. A Moove vem em terceiro lugar com 13,7% de participação, seguida da Shell com 9,9% e a Petronas completando as “TOP FIVE” do mercado com 8,1%. Quando ampliamos o foco para as dez primeiras empresas do mercado brasileiro de lubrificantes, encontramos a YPF correndo em sexto lugar com 2,1% de participação, seguida de bem perto por Energis 8 e Ultrax, ambas com 1,7%, vindo a seguir Ingrax e Castrol com 1,5% cada, ficando algumas diferenças entre as últimas nos centésimos dos pontos percentuais.

Números divergentes

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis – ANP recebe, por meio de seu Sistema de Movimentação de Produtos – SIMP, os números de todas as empresas do mercado, que passam as informações de produção, vendas e toda a movimentação que fazem com os lubrificantes. Esses números são publicados pela agência conforme a informação recebida. Ocorre que qualquer dificuldade que as empresas tenham com relação à adaptação de suas premissas contábeis ou mesmo da classificação de seus produtos ao sistema da ANP, pode ocasionar alguma distorção no volume efetivamente vendido, em relação ao informado ao SIMP. Assim sendo, uma análise profunda do mercado, como a realizada por esta revista, requer uma avaliação comparativa detalhada entre os números reais das empresas e aqueles apresentados pela ANP. Dessa forma, pode haver uma diferença, por vezes importante, principalmente no que se refere à participação de mercado entre a publicação oficial da agência e o que é mostrado neste artigo. Cabe lembrar que a análise aqui apresentada contempla os números checados com as próprias empresas envolvidas.

Mercado por região

A região Sudeste, englobando os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, continua como o maior mercado do país, representando cerca de 44,7% das vendas de lubrificantes, sendo que só o Estado de São Paulo tem quase um quarto do consumo nacional. Em seguida vem a região Sul, com 20,5%, Nordeste com 13,8%, Centro Oeste com 11,7% e Norte com 9,3%. O volume apresentado pela região Norte significou um crescimento de 14% das vendas, com relação a 2019, chamando a atenção para o bom desempenho dessa região.

Um grande importador de óleos básicos

O Brasil é hoje, e ainda continuará sendo por muito tempo, um grande importador de óleos básicos, principalmente os básicos de grupos II e III. A produção das refinarias brasileiras em 2020 representou algo em torno de 34% das necessidades do país, sendo que a RLAM, na Bahia, em processo de venda, não produziu praticamente nada de básicos este ano, e somente a REDUC, no Rio de Janeiro produz óleo básico de grupo I, pois a LUBNOR, no Ceará, só produz óleo naftênicos (grupo V). A indústria do rerrefino colaborou de forma significativa, colocando no mercado cerca de 246 mil metros cúbicos, equivalente a 18% da produção do país, com algo em torno de 42% desse volume de óleo básico do grupo II produzido pela Lwart Lubrificantes, única com essa tecnologia no país.

A Petrobras já anunciou a intenção de executar a desativação de um dos dois trens de produção da REDUC, processo esse que só não foi realizado em 2020 pelo grande desespero do mercado devido a uma crise de abastecimento internacional, fazendo com que a refinaria produzisse nos dois últimos meses, uma quantidade superior à média mensal do ano.

Com esse perfil de produção nacional, o Brasil precisou importar 653.662 m3 de óleos básicos, em 2020, que representou 48% de sua demanda, com um desembolso para o país de um montante em torno dos US$371 milhões. Os Estados Unidos foram os grandes fornecedores de básicos dessa importação, com 75,9% do total, seguidos por países como a Malásia (5,2%), Coreia do Sul (5,1%), Barein (3,0%), Catar (2,3%) e outros.

O mercado brasileiro de lubrificantes deu uma demonstração de força e resiliência no ano de 2020, superando qualquer expectativa e previsão, para um ano tão atípico. Também já deu mostras de que tem boa capacidade de logística e distribuição, bem como de crescimento da maturidade comercial e tecnológica. A grande questão que existe para um melhor desempenho no futuro são os investimentos a serem feitos no setor de refino do país, que ultimamente só tem visado a produção de combustíveis, criando uma dependência externa de quase metade do que consome de óleos básicos. O mercado externo se preparou para suprir a demanda crescente por básicos de grupos II e III e, em condições normais de abastecimento global, é capaz de produzir o suficiente para atender à demanda mundial. Como o Brasil ainda não decidiu que caminho tomar com relação ao abastecimento de óleos básicos, fica situado na ponta compradora desse mercado, entrando em grande apreensão a cada furacão se forma na região do golfo do México, ou a cada situação de restrição de produção em outros países. A retomada da Economia brasileira certamente virá mais cedo ou mais tarde, e os problemas de logística interna, como transporte e armazenagem só tendem a crescer com o aumento das importações. Enquanto isso, só resta ao mercado brasileiro de lubrificantes aguardar o interesse de governos e possíveis parceiros em investir na produção de óleos básicos de melhor qualidade.