Consórcio para produção de elétricos no Brasil da VWCO

Oito fornecedores vão participar do novo modelo de negócio para eletrificação de caminhões e ônibus

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Consórcio para produção de elétricos
O e-Delivery: novas possibilidades com consórcio elétrico de produção

Consórcio para produção de elétricos

Mais de 20 anos depois da criação do bem-sucedido consórcio modular em que os fornecedores participam da produção dos veículos em Resende (RJ), a Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO) vai recriar ideia semelhante para viabilizar a fabricação de modelos elétricos. A empresa anunciou o lançamento do e-Consórcio na quarta-feira, 2, na Suécia, durante o Innovation Day promovido pelo Traton Group, companhia que no ano passado substituiu a Volkswagen Truck & Bus e agrega os negócios de veículos comerciais MAN, Scania e VWCO.

Oito empresas parceiras vão participar do e-Consórcio, seis delas já confirmadas. A parceria envolve não só a produção de caminhões e ônibus eletrificados, mas também o fornecimento de infraestrutura de recarga e manutenção. A Siemens, por exemplo, vai fornecer aos clientes de veículos elétricos da VWCO projetos de energia e recarregadores. A chinesa CATL fornece as células para os bancos de baterias que serão montados e distribuídos no Brasil pela Moura, que também fará a manutenção. Bosch (fabricante de componentes e sistemas), Weg (motores elétricos) e Semcon (projetos e engenharia) vão desenvolver e fornecer componentes.

Roberto Cortes, presidente da VWCO e membro da diretoria do Traton Group, avalia que o e-Consórcio deverá não só repetir o sucesso do consórcio modular, mas leva o modelo a um próximo nível mais elevado, para fora dos portões da fábrica, pois além de produzir e entregar veículos comerciais elétricos, também fornece a infraestrutura que o cliente precisa para eletrificar sua frota. Segundo o executivo, ainda não está ainda totalmente definido o que cada parceiro vai fazer, mas a produção de veículos elétricos em escala comercial na planta de Resende já está marcada para o fim de 2020, começando pelo e-Delivery de 11 e 12 toneladas de peso bruto total (PBT). Desde o ano passado o modelo vem sendo testado e rodou 15 mil quilômetros em entregas de bebidas em São Paulo da Ambev, que já encomendou 1,6 mil caminhões elétricos Volkswagen para substituir um terço de sua frota até 2023.

“Já fizemos história com o consórcio modular de Resende e vamos repetir isso com o e-Consórcio. É a estreia mundial de um modelo de negócio inovador, que divide custos e resultados com os fornecedores. Vamos produzir, vender e recarregar veículos elétricos. Mais do que o produto, vamos fornecer o que o cliente precisa para eletrificar o transporte. Com os parceiros poderemos fazer isso acontecer mais rápido”, diz Roberto Cortes.

 

Potencial interno e externo

Cortes aposta que existe grande potencial de crescimento na demanda por caminhões elétricos para entregas urbanas no Brasil. “Além da Ambev já temos uma fila de clientes interessados”, revela. Apesar de custar mais caro do que um veículo com motor diesel, o executivo lembra que, conforme mostraram os testes, o e-Delivery tem gastos com combustível 70% menores e a manutenção custa 50% menos. O propulsor elétrico tem grande longevidade, número pequeno de componentes, não precisa de óleo nem de caixa de câmbio. Até os freios duram 10 vezes mais, pois o sistema de regeneração da energia cinética das frenagens para recarregar as baterias também funciona como um freio-motor e preserva lonas, pastilhas e discos.

Embora ainda não exista nenhuma negociação concreta em curso, o caminhão elétrico alinha a VWCO com a tendência de eletrificação dos veículos em vários países da Europa, abrindo caminho para exportação a mercados maduros. “O projeto do novo Delivery já foi pensado para ser global, portanto ele se encaixa em vários países. Exportar o e-Delivery é uma possibilidade a ser explorada, mas para isso vamos precisar adaptar o caminhão à legislação de emissões e equipamentos de segurança”, explica.

“Pela primeira vez na história da indústria não estamos seguindo e adaptando uma tecnologia já desenvolvida nas matrizes, desta vez a engenharia brasileira lidera uma nova proposta de eletrificação para o mundo”, avalia Rodrigo Chaves, vice-presidente de engenharia da VWCO.

 

Segundo Chaves, o projeto do e-Delivery é bastante flexível e existe a possibilidade de configurar o modelo para atender melhor a legislação de emissões na Europa. Christin Levin, executivo-chefe de operações (COO) do Traton Group, confirma o interesse em copiar em outras unidades da companhia o modelo de negócio do e-Consórcio e internacionalizar o seu principal produto.

“A nova geração do consórcio modular com parceiros estratégicos poderá ser copiada, especialmente porque vai além [da venda] do concessionário, também fornece infraestrutura de recarga ao cliente e isso pode ser muito vantajoso. Baterias são ainda muito caras, custam quase o mesmo que o veículo todo, dividir esse custo de desenvolvimento e fornecimento é uma boa ideia. Também acreditamos que esse é um modelo que pode ter o apoio dos governos para viabilizar a eletrificação. O e-Consórcio é um bom exemplo do ecossistema de colaboração e muitas partes dessa ideia podem ser exportadas”, afirma Levin.

Sobre o potencial de venda do e-Delivery em mercado maduros da Europa, o COO aponta que gostaria de ter o modelo no portfólio de produtos europeu, mas existem algumas limitações da legislação, por isso as possibilidades estão sendo investigadas. “Já pedimos ao Rodrigo (Chaves) aqui um caminhão (elétrico) de 17 toneladas”, afirmou Levin olhando para o chefe da engenharia da VWCO, que respondeu dizendo que está pronto para atender o pedido do grupo.

 

Meuller, da Inbev, e Cortes, da VWCO, no Innovation Day do Traton Group: novas possibilidades de negócios com o e-Delivery

Também presente no evento do Traton Group, Patrick Meuller, vice-presidente global de compras e inovação da Inbev (holding controladora da Ambev), afirmou que a experiência de uso do e-Delivery no Brasil servirá de exemplo para a decisão de compra de caminhões elétricos em outras partes do mundo onde a empresa atua hoje (mais de 70 países). A Inbev/Ambev tem meta de reduzir em 25% suas emissões de CO2 até 2025. “A sustentabilidade está no centro do nosso negócio, olhamos para o impacto que causamos, mas não conseguimos atingir sozinhos as metas que propomos, precisamos de toda nossa cadeia de fornecedores envolvida com os mesmos objetivos. No caso da Volkswagen Caminhões e Ônibus, eles vieram a nós com uma boa solução. Precisamos de parceiros pró-ativos”, destacou Meuller.

Elétrico flexível

No projeto do seu caminhão elétrico, a VWCO desenvolveu uma solução de engenharia patenteada para criar uma arquitetura flexível, que permite a rápida integração para utilização de componentes dos integrantes do Traton Group (Scania, MAN e a própria VWCO) e também de seus parceiros de aliança do grupo, como a americana Navistar/International e a japonesa Hino (divisão de fabricação de caminhões da Toyota). Por isso, segundo Chaves, existem muitas soluções na prateleira que podem ser usadas para fazer o e-Delivery em diversas configurações possíveis de peso, capacidade, powetrain e autonomia.

Exemplo dessa sinergia do grupo foi o desenvolvimento, em apenas quatro meses, do VW e-Delivery 4, equipado com eixo trativo elétrico dianteiro da Hino com redução de 12:1, que foi desenvolvido em Resende e trazido ao Innovation Day na Suécia para sua primeira apresentação pública. O protótipo tem 4 toneladas de PBT, capacidade para até 2 toneladas de carga, motor de 85 kW (cerca de 114 cv), torque máximo de 280 Nm e autonomia de até 200 quilômetros com seu conjunto de baterias de íons de lítio. O modelo expande as possibilidades do Delivery elétrico para o segmento de caminhões leves de entrada – além dos 11 e 14 toneladas já desenvolvidos com motor elétrico Weg de 200 kW (268 cv), também com autonomia de 200 km.

“Com o e-Consórcio somamos forças com empresas que são referência para o desenvolvimento da eletromobilidade. Nosso time construiu de forma pioneira configurações de tecnologia e de modelo de negócios que vão facilitar e acelerar a introdução de veículos elétricos no cenário de transporte mundial. É um modelo totalmente flexível, com vários tipos de soluções”, destaca Roberto Cortes.

Em caminhões, a arquitetura desenvolvida pela VWCO divide o veículo elétrico em três módulos principais: frontal (cabine e auxiliares), central (baterias) e traseiro (trem-de-força). É possível alterar a composição de cada módulo de forma independente do outro, o que possibilita criar diversos arranjos e combinar diferentes pacotes modulares, criando assim amplas sinergias entre as empresas do grupo e parceiros. Em Resende, foi criado um time dedicado de e-Mobility, com engenheiros brasileiros que estudam soluções utilizando tecnologia e componentes de outras empresas do Traton Group.

 

O e-Delivery e o Volksbus e-Flex: apresentação para imprensa europeia

A VWCO também trouxe para apresentação na Suécia o e-Delivery de 12 toneladas testado em operações da Ambev e o ônibus híbrido Volksbus e-Flex, apresentado há um ano no Salão de Hannover, na Alemanha. É a aposta da empresa de eletrificação para o transporte de passageiros. Em fase de testes da montadora em Resende, o veículo tem tração 100% elétrica, mas também usa um gerador interno a combustão, o motor Volkswagen 1.4 TSI turbo flex etanol-gasolina (que também pode ser a gás natural ou biometano), produzido em São Carlos (SP) e que equipa carros como Golf, Polo, Virtus e T-Cross, em mais um exemplo de sinergia entre empresas do grupo. O Volksbus e-Flex tem autonomia elétrica de cerca de 200 quilômetros, que pode ser estendida quando o gerador é ligado e também pelo sistema de recuperação de energia das frenagens.