IAA Frankfurt reflete transformação dos salões em plataforma de mobilidade

Evento continua a mostrar sua importância para propor o futuro e encantar visitantes com carros dos sonhos

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O estande de três andares da Mercedes-Benz no IAA 2019 ocupa todo o Festhalle da Messe Frankfurt: opulência e luxo para fazer frente aos novos tempos

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É verdade que o Salão de Frankfurt já teve número maior de fabricantes exibindo seus carros sofisticados a um público ávido por eles. Mas, se o IAA 2019 (12 a 20 de setembro) teve ausências importantes, nem por isso as presenças deixaram de ser ainda mais relevantes, nem as empresas deixaram de trazer à Messe Frankfurt sonhos de consumo sobre rodas apresentados de forma suntuosa – eles estão apenas diferentes na forma e no conteúdo. Diante das transformações disruptivas do setor automotivo, este ano os organizadores também transformaram o conceito do evento de salão do automóvel para plataforma de mobilidade individual, que a despeito de qualquer discussão semântica, continua a mostrar sua importância para propor o futuro da indústria e encantar visitantes com novas experiências.

“O IAA é o mais importante evento para a mobilidade individual do futuro. O evento está evoluindo, assim como toda a indústria, de uma exibição para uma plataforma onde estão presentes a maioria dos participantes desse ecossistema, sejam eles fabricantes de veículos, companhias de tecnologia, fornecedores, empresas de serviços de mobilidade e startups”, afirma Bernhard Mattes, presidente da VDA.

 

A Associação da Indústria Automotiva Alemã, ou VDA, reúne fabricantes de veículos e autopeças e organiza a cada dois anos o IAA, cuja história de 122 anos remonta a 1897, quando carros e carruagens ainda se confundiam nas ruas. Desde então o evento vem mostrando e acompanhando a evolução da indústria e da sociedade motorizada, chegando a quase mil expositores, entre montadoras e fornecedores de sistemas e serviços, espalhados pela imensidão dos 12 pavilhões da Messe, exibindo propostas que vão da mobilidade individual popular às abstrações tecnológicas que propõe um futuro cada vez mais próximo, que encantam os cerca de 800 mil visitantes recebidos a cada edição.

De acordo com a última pesquisa realizada em 2017 pela Messe, os visitantes do IAA Frankfurt são divididos praticamente por igual em três categorias: 30% vêm para conhecer as inovações e novos modelos, outros 30% querem ver automóveis que não são vistos em nenhum outro lugar e 29% dizem simplesmente que carros são seu hobby. Ou seja, a indústria pode mudar, mas seus produtos reunidos em um só lugar continuam a atrair uma legião de fãs apaixonados.


O carro-conceito elétrico Vison Zero da Mercedes-Benz: novidades e produtos que não são vistos em nenhum outro lugar continuam a atrair público para o IAA

AUSENTES REAFIRMAM IMPORTÂNCIA DOS PRESENTES

 

Algumas montadoras estrangeiras à Alemanha como GM, Toyota, Nissan, Volvo e FCA (Fiat Chrysler Automobiles) decidiram não exibir produtos no IAA deste ano. Com isso, os ausentes parecem não ter o que mostrar diante do novo cenário e assim reafirmam a importância dos presentes – especialmente as fabricantes alemãs donas da casa e sócias da VDA, que aproveitaram bem o espaço livre.

Marcas como BMW/Mini, Mercedes-Benz/Smart, Volkswagen/Audi/Porsche e Opel (esta a única representante do grupo francês PSA, que preferiu não enviar Peugeot e Citroën ao evento) trouxeram à Messe Frankfurt carros elétricos em profusão, mostrando que vão continuar bem vivas no novo cenário de baixas emissões veiculares orientado pela legislação europeia – e nessa tendência foram acompanhadas pelos braços europeus das estrangeiras que parecem enxergar o futuro da mesma maneira, como a coreana Hyundai, a americana Ford, a inglesa Jaguar Land Rover e até as chinesas Wey e Byton, com enormes SUVs elétricos que sequer têm clientes na Europa.

“Não é mais necessário apresentar tudo, mas fornecer os impulsos certos e trazer todos os atores relevantes de cada setor juntos”, afirma Mattes. “O IAA deste ano mostra lançamentos mundiais e reflete toda a cadeia de valor da mobilidade, que apresenta ao público um grande número de soluções tecnológicas e prospecções para o futuro”, acrescenta o presidente da VDA.


O estande de três andares da Mercedes-Benz no IAA 2019 ocupa todo o Festhalle da Messe Frankfurt: opulência e luxo para fazer frente aos novos tempos

Em um majestoso estande futurista de três andares ocupando todo o pavilhão 2 e a Festhalle (casa de shows), a Mercedes-Benz, marca que inventou o carro com motor a combustão, fez de sua exibição no IAA um espetáculo em que a atração central não é mais só um veículo, mas o conjunto da obra, por meio da eletrificação do luxo sobre rodas e das novas experiências que a mobilidade individual e eletrificada pode oferecer às pessoas.

“O futuro será pavimentado pela tecnologia, enquanto existe alta demanda pelo que é especial, por mobilidade individual de luxo. A procura por artigos de luxo cresceu três vezes nos últimos 20 anos. Esse é um cenário perfeito para a Mercedes-Benz”, apontou em seu discurso à imprensa Ola Källenius, presidente do conselho da Daimler e chefe da divisão de carros do grupo.

 

A crença central demonstrada pelos executivos presentes no IAA 2019 é a de que o cenário disruptivo que envolve a indústria automotiva no mundo todos não exclui a necessidade de continuar a encantar consumidores apaixonados por marcas e veículos. Não é por outro motivos que as principais atrações dos salões são os produtos que a maioria dos visitantes nunca poderá comprar.

“Clientes compram carros, fãs são apaixonados por marcas. Clientes compram desempenho, fãs querem paixões. Cabe a nós fazer a convergência entre eles”, pontuou no salão Bram Schot, presidente da Audi.

 

VISÃO BRASILEIRA

 

Em uma curta visita ao Salão de Frankfurt, o presidente da associação brasileira de fabricantes de veículos, a Anfavea, disse que gostou do que viu no IAA deste ano. Luiz Carlos de Moraes conhece o evento há décadas e avalia que é uma janela a propor o futuro.

“Os salões não devem ser confundidos com um showroom de automóveis. São muito mais que isso. São uma oportunidade demostrar as novidades, discutir o contexto econômico e falar sobre o futuro do setor. Por isso continuam sendo um fórum necessário para a indústria, mais ainda nesse momento de transformação em que é preciso discutir e propor a nova mobilidade. É o que vejo aqui em Frankfurt”, avalia Luiz Carlos de Moraes.

 

O presidente da Anfavea aponta que no atual contexto o Salão do Automóvel de São Paulo (o próximo está marcado para novembro de 2020) também ganha relevância. “Temos de fazer como aqui, levar para lá mais executivos das matrizes e os conceitos que eles apresentam, para dar visão internacional ao evento, e na mão inversa trazer para cá representantes dos órgãos de regulamentação brasileiros, para que eles entendam a evolução da indústria”, sugere. “Um bom exemplo é o que a Mercedes-Benz faz em Frankfurt, trazendo concessionários e seus representantes do mundo inteiro para mostrar o que está fazendo”, indica Moraes, que é diretor de comunicação e relações governamentais da Mercedes no Brasil.

“O Salão de São Paulo é o maior da América Latina e um dos que tem maior representatividade em volume de marcas e número de visitantes do mundo, já temos relevância internacional”, pontua Leandro Lara, diretor do portfólio de mobilidade da Reed Exhibition Alcantara Machado, organizadora do evento que a cada edição recebe mais de 700 mil pessoas no SP Expo. “Visitando as grandes feiras internacionais, percebo que estamos em linha com as tendências globais e em alguns aspectos avançamos até mais rápido, como a criação em 2018 das pistas externas de test drive (foram cinco em 2018, uma só para elétricos) e do espaço New Mobility, para incluir os carros nas discussões sobre mobilidade, como está acontecendo agora aqui em Frankfurt”, avalia.

Lara defende que é preciso pensar nos salões modernos como “local para propagar o discurso coletivo do setor, indicar caminhos e mostrar a importância desta indústria”. Essa relevância continua a ser comprovada por líderes políticos que costumam inaugurar o evento e transforma-lo em palco de anúncio de decisões importantes para o setor. No Brasil o decreto de regulamentação do Rota 2030 foi assinado pelo presidente da República na inauguração oficial do Salão de São Paulo de 2018. Em Frankfurt, como sempre acontece todos os anos antes da abertura do evento ao público, a chanceler Angela Merkel e sua comitiva visitaram os pavilhões do IAA, com direito a paradas e breves discursos nos estandes dos principais fabricantes alemães de veículos e componentes.


Visita da chanceler Angela Merkel ao Salão de Frankfurt comprova o prestígio que om evento continua a ter

Para o executivo da Reed, o IAA com suas mudanças conceituais indica que os salões de automóveis ainda têm relevância e vão continuar a ter enquanto acompanharem a evolução do setor, com doses iguais de sonho e realidade. “É preciso encantar as pessoas que vão ao salão principalmente para conhecer carros de sonhos, é o que mais continua a atrair público para o evento, mas ao mesmo tempo é necessário apresentar soluções práticas para a mobilidade”, pontua Lara.


Leandro Lara, da Reed Exhibition, visita o IAA 2019: comparação comprova evolução do Salão de São Paulo

Os salões também são um espaço privilegiado para descobrir os sonhos e desejos de consumidores atuais e futuros. Nesse sentido, para o próximo Salão de São Paulo, Lara adianta que os expositores vão poder conhecer melhor os visitantes: cada um deles receberá uma identificação por QR Code reunindo informações que poderão ser capturadas nos estandes do SP Expo, para identificar clientes atuais e potenciais e suas preferências. “Vamos dessa forma aumentar o valor do evento e de seus visitantes para as montadoras”, comenta o executivo.

ESPAÇO PARA A CADEIA AUTOMOTIVA

 

Nesse cenário também existe espaço para parte importante da cadeia automotiva. O IAA Frankfurt é o salão de automóveis que mais tem expositores fornecedores de sistemas automotivos – eles somam mais de 400 e representam cerca de 40% dos estandes montados na Messe. Este ano estão presentes boa parte dos grandes nomes do setor, como Aisin, BorgWarner, Bosch, Continental, Denso, Delphi, Schaeffler, Valeo e ZF, só para citar alguns dos maiores deles, que vêm para mostrar o quanto participam ativamente da evolução da indústria – e no caso da Alemanha são sócios da mesma entidade que reúne as montadoras, a VDA.

Também estão presentes os novos players do setor, as empresas de tecnologia, como IBM, Microsoft, Samsung e startups, que ocuparam todo o pavilhão 5 da Messe, batizado de New Mobility World.


Cadeia automotiva incluída nas prioridades do salão de Frankfurt: Wolf-Henning Scheider, CEO da ZF, recebe a chanceler alemã Angela Merkel para mostrar as inovações tecnológicas da empresa

“O IAA é único porque representa toda a cadeia de valor. No evento deste ano estamos destacando todo o ecossistema da mobilidade como nunca antes. Colocamos as companhias de tecnologia junto com os fabricantes de veículos, fornecedores de serviços e mobilidade e startups”, destaca Bernhard Mattes, presidente da VDA.

Lara avalia que trazer mais fornecedores ao Salão de São Paulo pode ser boa ideia, desde que seja para apresentar suas soluções tecnológicas para o futuro. “Faz sentido trazer os sistemistas se eles mostrarem o futuro assim como fazem as montadoras. Foi assim no ano passado com a Bosch, que voltou a ter um estande no salão após 20 anos porque criamos o espaço New Mobility”, lembra.

Em resumo, o IAA Frankfurt deste ano mostra que a melhor estratégia no atual cenário disruptivo não é brigar com o futuro, mas participar dele.