Transformação digital é a única forma para as companhias se manterem competitivas

Em entrevista à Revista da Indústria Brasileira, a presidente da IBM América Latina, Ana Paula Assis, explica como a empresa tem potencializado negócios em diferentes setores

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Segundo ela, atuar como startup implica em se mover rumo a um modelo de trabalho que é mais aberto, mais colaborativo e mais focado em metodologias ágeis, em um ambiente no qual as pessoas aprendem com as outras e há maior tolerância a erros. “É isso que buscamos fazer na IBM. Fomentamos uma cultura de criação, de inovação, de trazer ideias novas – que está em nosso DNA –, identificando em quais áreas de inovação vamos investir e atuar de forma diferente”.

REVISTA DA INDÚSTRIA BRASILEIRA – Como a tecnologia digital ajuda as empresas na transição para a Indústria 4.0?

ANA PAULA ASSIS – Cada vez mais as empresas precisarão ser mais rápidas, eficientes e assertivas. E isso requer investimentos em inovação. A transformação digital na indústria compreende o uso de tecnologias que permitem a integração e a colaboração entre máquina e homem. Nesse sentido, soluções como inteligência artificial, IoT, cloud e blockchain chegam para contribuir e ajudar as empresas no movimento da chamada Indústria 4.0 ou a quarta revolução industrial.

Devemos ter em mente que os processos industriais estão passando por uma transformação radical e esse é um caminho sem volta. A conectividade, no entanto, pode gerar um turbilhão de dados vindos de diferentes origens e dispositivos conectados pela Internet das Coisas (IoT).

REVISTA DA INDÚSTRIA BRASILEIRA – Mas que impacto isso pode ter na indústria?

ANA PAULA ASSIS – A inteligência artificial é uma aliada da indústria ao oferecer insights a partir da análise de todos esses dados, ajudando na jornada para a Indústria 4.0. Temos um exemplo excelente na agricultura de precisão, um campo no qual as técnicas de irrigação de precisão, pulverização de precisão de defensivos e fertilização de precisão ajudam a reduzir custos e aumentar a produtividade de uma forma sustentável. Outro exemplo é a rastreabilidade para otimização da cadeia de suprimentos e a redução de perdas, como estamos fazendo globalmente com redes como Carrefour, Nestlé e Walmart.

REVISTA DA INDÚSTRIA BRASILEIRA – A IBM já criou alguma tecnologia a pedido de clientes com esse objetivo? 

ANA PAULA ASSIS – Temos muitos exemplos em diversas indústrias, como alimentícia, agro e automotiva. Vou citar alguns casos públicos, dentre muitos que temos. A Belagrícola investiu em um projeto arrojado de rastreamento e adotou o uso de dispositivos de IoT que fornecem dados de medição registrados na plataforma de blockchain, para garantir a procedência e qualidade das cadeias de grãos de soja e milho.

Nessa cadeia, os resultados dos testes de laboratórios dos grãos são gravados no blockchain de forma automática pelo IoT, fornecendo a categorização dos grãos das moendas e dos silos, aplicando um selo digital de qualidade e procedência do lote. A Volkswagen lançou, em novembro de 2017, o primeiro carro com manual cognitivo utilizando inteligência artificial, o Virtus. O modelo é o primeiro automóvel do Brasil a inovar com recursos inéditos de conectividade e digitalização.

REVISTA DA INDÚSTRIA BRASILEIRA – Como assim?

ANA PAULA ASSIS – O sedã oferece o “manual cognitivo” – que usa IBM Watson para responder aos motoristas questões sobre o veículo, incluindo informações do manual do carro. Essa solução permite uma nova forma de interagir com o veículo e oferece uma nova experiência tecnológica. Atualmente, apenas para o modelo Virtus, estão cadastradas mais de 10 mil possibilidades de perguntas diferentes, entendendo a linguagem natural, para elevar o nível de entendimento das dúvidas dos clientes.

REVISTA DA INDÚSTRIA BRASILEIRA – E como funciona a exploração de um grande volume de dados?

ANA PAULA ASSIS – Na empresa O Boticário, um sistema que usa algoritmos de aprendizado de máquina filtra centenas de milhares de fórmulas e milhares de matérias-primas para identificar padrões e novas combinações de aromas e assim desenvolver dois perfumes. Como parte do processo de desenvolvimento humano-máquina, as fórmulas iniciais sugeridas pelo sistema foram minimamente ajustadas por um mestre perfumista para enfatizar uma nota específica da fragrância e aprimorar o seu tempo de fixação na pele.

Isso permitiu criar um produto personalizado para um determinado grupo de consumo, com base em características demográficas e de personalidade. Os primeiros perfumes foram lançados no último dia 27 de maio.

REVISTA DA INDÚSTRIA BRASILEIRA – Como cientista da computação e executiva de uma empresa do setor, qual o potencial da ciência de dados no aumento da produtividade?

ANA PAULA ASSIS – O tempo todo estamos produzindo conteúdo, que se transforma em dados. Hoje, uma empresa armazena uma quantidade imensa de informações. A inteligência artificial possibilita uma análise inteligente desse volume de dados. Cerca de 80% do tempo e do esforço de um cientista de dados são voltados a coletar, filtrar e prepará-los para análise.

Essa análise gera insights para as empresas, de forma a ajudar na tomada de decisões e, consequentemente, contribuir para o aumento da produtividade. Por meio da ciência de dados é possível, por exemplo, conhecer melhor o perfil do cliente, o comportamento de compra e melhorar a experiência do usuário de um determinado serviço. Para uma empresa ser competitiva hoje, independente de sua área de atuação, precisará mergulhar nos seus dados e extrair informações relevantes para que seu planejamento estratégico seja o mais assertivo possível.