Principais desafios da indústria automotiva brasileira

“É preciso ter tamanho e definir um posicionamento para atuar no mundo digital”

Rodrigo Custódio, diretor da Roland Berger, fala dos principais desafios da indústria automotiva brasileira para os próximos anos

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Rodrigo Custódio, diretor da Roland Berger

Principais desafios da indústria automotiva

Rodrigo Custódio, diretor da Roland Berger, lidera na empresa a realização do estudo Cenários para a Indústria Automobilística, feito anualmente em parceria com Automotive Business. Nesta edição a pesquisa mediu as perspectivas das pessoas que atuam no setor automotivo acerca de assuntos como expansão do mercado, produção, exportações, cadeia de fornecedores, concessionárias, inovação e investimentos no desenvolvimento de novos modelos de negócio para a mobilidade.

O estudo

O estudo foi feito on-line ao longo de fevereiro de 2019 e contou com a participação de quase 500 respondentes. Em entrevista exclusiva ao AB Webinar, Custódio comentou os principais aspectos da pesquisa e respondeu perguntas da audiência que acompanhou a entrevista ao vivo pela internet.

Veja abaixo os principais trechos da conversa, que continuará no #ABX19, o Automotive Business Experience, que acontece no dia 27 de maio e conta com a participação de Custódio entre os mais de 130 palestrantes.

Esta foi a sexta edição da pesquisa Cenários, que trouxe visão mais aprofundada sobre inovação na indústria automotiva. O que descobrimos?

Sim, 9% dos respondentes apontaram que suas organizações são centros globais de inovação e parcela significativa afirma que trabalha em soluções disruptivas, mas ainda existe porcentual muito importante que não investe em inovação localmente ou que apenas adapta avanços globais. Esse é um tema historicamente importante no Brasil.

Também perguntamos sobre os esforços para acompanhar as grandes tendências de mobilidade e 15% das empresas apontaram que ainda não abordam esse tema, 28% dizem que têm esforço baixo ou ainda estão em fase de elabor ação de estratégia e parcela de 31% diz já estar avançada nesse processo, com alto capital humano e financeiro alocado.

A pesquisa mostrou também que as empresas automotivas ainda têm dificuldade para atuar de forma mais colaborativa no setor. O que essa conclusão representa?

A maioria das empresas ainda espera fazer inovação a partir de recursos e equipes próprias. A consequência imediata disso é que, como os recursos financeiros são limitados, há um gargalo para inovar.

“É válido fazer P&D com investimento próprio, só que nesse cenário de disrupção, vemos que é muito melhor trabalhar com parcerias, criar um ecossistema de inovação para ganhar velocidade e alavancar o desenvolvimento de novas soluções.”

Qual é a sua análise da perspectiva de disrupção do setor automotivo? Quais cenários podem surgir desse processo e como oferecer novas soluções de mobilidade se ainda não estamos preparados para isso? 

Precisamos pensar na tecnologia para resolver os grandes problemas que temos no Brasil. Nesse ponto, as oportunidades aqui são imensas. Por exemplo, quem dirige em São Paulo certamente gostaria de contar com uma opção de carro que tenha outra solução diferente dos retrovisores externos porque eles são um barreira entre o motorista e o motociclista. Esta é uma necessidade que alguém que vive em Berlim não tem. Para acompanhar a disrupção, precisamos trabalhar nas ideias que não virão de fora.

Com a entrada dos carros elétricos no mercado, como você percebe as consequências para os fabricantes de componentes para motores a combustão? 

A velocidade de desenvolvimento da eletrificação que impacta a cadeia de fornecimento varia de acordo com o país e o segmento do veículo. Abordamos isso na nossa pesquisa e notamos que existe um consenso de que, para modelos leves e caminhões, essa mudança será um pouco mais lenta no Brasil, mas para ônibus o movimento será mais acelerado. Nossas projeções indicam que 20% das vendas globais sejam de veículos elétricos em 2030.

Mundialmente, existe um movimento inequívoco quanto à eletrificação e isso impacta os fabricantes de motores a combustão. Minha recomendação é que as empresas mantenham uma postura ativa para definir uma estratégia o quanto antes.

A pesquisa mostra que as empresas automotivas ainda entendem digitalização apenas como ganhar eficiência nos processos. Qual é a consequência disso?

Este é um hábito de nossa indústria. O movimento por ganho de eficiência é importante, mas isso não está limitado à fábrica. Há enorme oportunidade de usar robôs em processos administrativos no Brasil, para executar tarefas penosas, repetitivas. Também existe toda uma questão de comunicação com o cliente, que traz uma série de possibilidades de lucro. Essas são questões que a digitalização pode atender muito bem e vejo que ainda não estamos aproveitando todo o potencial. A visão sobre a digitalização nas empresas ainda não é completa.

A impressão 3D será uma opção para a indústria de autopeças? Isso será viável em larga escala?

A manufatura aditiva, ou impressão 3D, ainda é mais intensamente usada para peças onde a demanda é por altíssima tecnologia e complexidade, mas com baixa escala. Existem muitas aplicações na indústria aeronáutica, na medicina e em peças de reposição. As oportunidades mais interessantes estão em peças de design, mas em larguíssima escala ainda faltam aplicações bem definidas.

Em relação às concessionárias, você pode fazer um balanço dos resultados da pesquisa? 

Perguntamos qual deve ser a principal fonte de lucro das concessionárias e os respondentes indicaram aumento das receitas com os serviços e com a venda de peças. É uma atualização do Brasil na direção das tendências mundiais. Hoje em uma concessionária da Europa ou EUA, a margem na venda de um veículo novo é de 1% a 2%. Então a lucratividade vem, de fato, da venda de peças e serviços. Ao longo dos últimos anos os concessionários, pela crise que vivemos, amadureceram.

Com o avanço de carros autônomos compartilhados ainda haverá campo para os veículos convencionais? 

Antes de mais nada, a questão de veículos compartilhados e autônomos vai acontecer, mas não será do dia para a noite, nem em todas as cidades. O Brasil é um país de dimensões continentais, temos municípios de diversos perfis. Os veículos compartilhados e autônomos funcionam muito bem nos grandes centros, mas temos alguns desafios no Brasil, como a dependência de tecnologia 5G.

Quando falamos do aftermarket, como as oficinas independentes devem se preparar para o futuro?

Bem a longo prazo, em 2030, 20% dos veículos vendidos serão elétricos. Estes têm muito menos componentes que os equipados com motor a combustão e sua manutenção é muito mais simples. De cara devemos ter uma redução tremenda no tamanho do mercado de reposição. A digitalização é outro ponto importante, já que as montadoras e fabricantes de peças terão melhor comunicação com o usuário ou com o proprietário do veículo diretamente. Dessa forma, eles podem direcionar para onde o proprietário tem que ir para fazer a manutenção.

A competição se torna desigual. Começa a ficar cada vez mais relevante ter tamanho e definir um posicionamento para trabalhar no mundo digital.

Há espaço para inovar neste contexto?

A disrupção automotiva vai impactar toda a cadeia de valor. E pode-se ver isso como um problema ou como uma oportunidade. Mas é preciso encarar essa mudança que virá. É essencial desenhar uma estratégia e comunicar ela bem ao mercado, senão há risco de perder acionistas, colaboradores e enfrentar uma série de problemas. É preciso ter muito claro qual será o posicionamento da empresa no futuro.

Voltando à pesquisa, outro aspecto que o estudo levantou é sobre os desafios que as montadoras projetam para esse ano. Quais foram as conclusões?

Lucratividade continua sendo um desafio, embora já vejamos empresas que se reestruturaram durante a crise e têm melhora bastante interessante. Há também uma preocupação importante com a cadeia de fornecedores. Varia de empresa para empresa, mas de um certo modo esta preocupação que os participantes mostram também está relacionada com a lucratividade.

Outro recorte interessante do estudo é quais montadoras estariam mais preparadas para responder à recuperação do mercado. Qual é o destaque neste caso?

Perguntamos para os participantes quais empresas eles acham que estão melhor preparadas para a retomada. Surgiram Volkswagen, Toyota e Hyundai. A Volkswagen fez um trabalho muito importante nesses últimos anos, de início de renovação de portfólio e está muito melhor preparada depois de uma queda grave nos últimos anos. É um pouco disso que vemos nas opiniões. A Toyota e a Hyundai têm apresentado crescimento sólido ano a ano.

Até que ponto a cadeia nacional de autopeças está preparada para atender a esta recuperação do mercado? Quão necessário serão as parcerias entre empresas nessa área? 

Considero crucial a formação de parcerias em diversos níveis. Vemos empresas como a ZF que, depois de ter comprado a TRW, anunciou a aquisição da Wabco. A consolidação é essencial para sobreviver nesse setor. Vemos ainda a atuação intensa de fundos de investimento que têm uma percepção desse momento, começando a fazer aquisições. Até por conta do excesso de capital que esses fundos têm, eles devem continuar a ser os catalizadores para essa consolidação.

Os fundos de investimento ainda não focam tanto em comprar fornecedores para montadoras, mas para o mercado de reposição. Concorda com esta afirmação? 

Os fundos de investimentos gostam do segmento de reposição porque este mercado é mais resiliente, menos volátil mesmo em épocas de crise. Um dos critérios para fundos de investimento normalmente é geração de caixa constante, então há uma oportunidade mais clara neste espaço.

O compartilhamento veicular tende a reduzir ou aumentar as vendas? 

A partir do compartilhamento, você tem uma melhor utilização dos ativos que estão nas ruas e precisa, em um primeiro momento, de menos veículos. Em um segundo momento, no entanto, este carro é mais utilizado, o que pode acelerar a troca. Enquanto a demanda por mobilidade do usuário não mudar, enquanto as pessoas não passarem a trabalhar de casa ao invés de ir para o escritório, o veículo continuará sendo muito necessário. É difícil acertar o que vai acontecer exatamente no futuro, mas é importante considerar esses aspectos e a situação de cada região.

Com as tendências de eletrificação, automação e compartilhamento, o preço do carro deve estabilizar ou aumentar? Qual é a sua perspectiva?

O carro tem mais valor agregado. Quando falamos de veículo elétrico, seu preço está atrelado ao custo da bateria, que é alto, mas vai baixar nos próximos anos. Começam a surgir mais funções no carro com a automação e a maior possibilidade de customização.

Vai existir uma democratização do automóvel não como posse, mas do seu uso. Hoje em dia não precisamos gastar 20 mil dólares para comprar um veículo. Por dois dólares temos um carro na frente de casa para fazer um deslocamento em plataformas como a Uber, por exemplo.

Assista à entrevista completa com Rodrigo Custódio no AB Webinar: