O progresso deve ser compartilhado por todos

Em entrevista ao jornal O Globo, o economista Marc Giget defende que futuro da área passa por um salto na educação, mas também pela quebra do ‘mito’ de que a Inteligência Artificial substituirá trabalho humano

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O progresso deve ser compartilhado
“Não há sequer um trabalho científico sólido que mostre que os empregos serão substituídos por robôs. Se olharmos os países mais avançados em robótica, como Coreia e Alemanha, é justamente neles onde há mais empregos”

O progresso deve ser compartilhado

O caráter tecnológico da inovação deixou de satisfazer a sociedade, afirma o francês Marc Giget. Aos 67 anos, o economista é considerado um dos maiores especialistas do mundo no tema. Segundo ele, a inovação precisa resgatar seu objetivo original, que remonta à época de Aristóteles: proporcionar impacto social positivo e compartilhado por todos.

Fundador do Instituto Europeu de Estratégias Criativas e Inovação, ele acha que o mundo está prestes a entrar em uma “Belle Époque”, mas admite que a transição pode ser dolorosa. “Estamos em um momento delicado. As pessoas não vão esperar 15 anos para arrumar um trabalho na nova configuração gerada pela síntese das tecnologias. Todos os períodos de inovação são períodos de crise”, disse ele ao GLOBO, por telefone, de Paris, onde mora.

O GLOBO – O senhor publicou, há alguns meses, um extenso estudo sobre o futuro da inovação. Quais são as conclusões?

MARC GIGET – Uma delas é que, apesar do avanço da tecnologia, isso não se traduz em satisfação dos usuários. A melhoria na qualidade de vida que se esperava a partir dessas inovações não aconteceu. As maiores beneficiadas são companhias como as Gafa (sigla usada na França para designar Google, Apple, Facebook e Amazon). Logo, é preciso reorientar a inovação para elevar a satisfação e o bem-estar dos consumidores. Aristóteles já dizia que o progresso de nada vale se não for compartilhado por todos. Hoje, o grande problema é a repartição da riqueza. Se for para apenas 10% da população, cria-se uma tensão quase revolucionária. A prioridade de hoje deve ser a inovação inclusiva.

O GLOBO – Seu estudo afirma que os recursos humanos serão centrais. Como as empresas reagem a isso?

MARC GIGET – Algumas aprenderam a trabalhar com equipes autônomas, com maior delegação de tarefas e responsabilidades. Mas outras continuam engessadas. O resultado é que hoje há um nível elevado de desengajamento do trabalhador em escala global. O empregado vai todo dia ao trabalho, mas não se sente parte do processo. E isso é grave porque nenhuma organização sobrevive sem iniciativa.

O GLOBO – Qual o papel da Inteligência Artificial nisso?

MARC GIGET – Como membro da Academia Francesa de Tecnologias, eu participei ano passado de um amplo estudo sobre a relação entre inovação e trabalho. E, ao analisar 200 estudos de todo o mundo, concluímos que há um grande mito sobre a Inteligência Artificial. Apesar da utilidade da IA, não há sequer um trabalho científico sólido que mostre que os empregos serão substituídos por robôs ou modelos matemáticos. Essa percepção tem um efeito devastador justamente no momento em que a inteligência humana se faz mais necessária. Se olharmos os países mais avançados em robótica, como Coreia e Alemanha, é justamente neles onde há mais empregos.

O GLOBO – Em uma entrevista, o senhor disse que nos aproximamos de uma nova “Belle Époque”.

MARC GIGET – Sim, porque as inovações nascem a partir de um longo período de aprimoramento científico. O que impressiona a sociedade não é, por exemplo, a invenção da álgebra ou a descoberta dos números primos. Mas a combinação desses saberes para gerar um bem comum. Hoje, vivemos o fim de uma onda tecnológica. O que vem depois é a fase de síntese desses avanços. Uma catedral ou um carro, por exemplo, combinam milhares de avanços. Esta é a fase mais interessante e que, de fato, leva à melhoria da qualidade de vida. É por isso que sou tão otimista.

O GLOBO – Quais políticas um país como o Brasil pode tomar para fomentar a inovação?

MARC GIGET – Quando falamos de novas “Belles Époques”, esses períodos nunca foram resultado da atuação de Estados. Na verdade, o papel do Estado é sobretudo a educação. Está provado que o nível de inovação está ligado ao nível educacional. No Brasil, uma parte do sistema de educação é boa, outra é média. Por outro lado, o país tem uma excelente educação corporativa com o Senai, que é a maior organização de formação permanente do mundo. O Estado também é responsável por inovações no segmento de serviços públicos, como saúde e transporte, que têm impacto no cotidiano das pessoas. A inovação inclusiva faz parte disso.

O GLOBO – O senhor já veio várias vezes ao Brasil para pesquisar e palestrar. Qual é sua avaliação do nível de inovação daqui?

MARC GIGET – Fiquei positivamente impressionado. Falo de casos como Natura, Boticário, Stefanini, Ellus, Havaianas, Marcopolo, Embraer, Positivo e Azul. As empresas do Brasil têm um complexo de inferioridade diante do exterior que não há razão de ser. Hoje, infelizmente, as companhias brasileiras sofrem as consequências de uma reviravolta muito intensa ocasionada pela crise, após anos de crescimento fulgurante.

O GLOBO – Economistas têm chamado a atenção para a desaceleração dos ganhos de produtividade. Por que isso acontece?

MARC GIGET – É um paradoxo. Quando surgem novas tecnologias, elas servem geralmente para racionalizar. Em um primeiro momento, elas, de fato, destroem postos de trabalho. O que os economistas não imaginavam é que a destruição teria tamanha intensidade. Isso acontece provavelmente porque a inovação hoje é guiada por softwares: os processos estão mais ágeis e baratos, mas não há nada tão novo como quando surgiram o automóvel e a eletricidade. O que há são setores que já existiam e que hoje estão mais automatizados e precisam de menos gente. A síntese de tecnologias está mais lenta, mas isso vai mudar. Sou otimista no médio e longo prazos.

O GLOBO – No curto prazo, o prognóstico é negativo, então?

MARC GIGET – Estamos em um momento delicado. As pessoas não vão esperar 15 anos para arrumar um trabalho na nova configuração provocada pela síntese das tecnologias. Todos os períodos de inovação são períodos de crise.

O GLOBO – Seu estudo também menciona a centralidade da colaboração. Mas as companhias tidas como campeãs da economia colaborativa, como Uber e Airbnb, são frequentemente criticadas pelo impacto social de seus modelos de negócio.

MARC GIGET – Primeiro, houve uma usurpação do termo “economia colaborativa”. Essas companhias não têm nada a ver com compartilhamento. O Uber não compartilha nada: pega 25% do rendimento dos motoristas e não os paga como funcionários. A verdadeira economia colaborativa é feita pelas cooperativas e associações que realizam trabalhos sociais e solidários. É em função disso, por exemplo, que taxistas ao redor do mundo se organizam para criar suas próprias plataformas, como o Taxi Roma. O custo da plataforma não chega a 5% da corrida, logo não há razão para abocanhar 25%.

O GLOBO – O senhor também é crítico da “start-up mania”. Por quê?

MARC GIGET – Acredita-se que as start-ups vão resolver todos os problemas. Mas elas são uma fatia ínfima das novas empresas e têm algumas particularidades, como o fato de precisarem de um volume imenso de capital para sobreviver. Mas a palavra entrou na moda e todo mundo diz que sua empresa é uma start-up. De fato, elas se multiplicaram. Cada aplicativo, por exemplo, tem 800 concorrentes similares. Mas estamos em um período de fusão, de diminuição no número de start-ups.

O GLOBO – As “Gafa” ainda são referência em inovação?

MARC GIGET – Hoje, elas não são mais inovadoras, na minha visão. Elas se comportam como monopólios, impedindo que concorrentes atuem em seus mercados. A qualidade das buscas do Google praticamente não evoluiu na última década. Onde a companhia evoluiu foi em funções que interessam sobretudo a ela. É a mesma coisa com o Facebook e a Amazon. Hoje, as Gafa são mais um problema do que uma solução.